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Corpo Sutil

Corpo Sutil

23/11/2016
Eu estou viva. A natureza está viva. Quero conectar-me à natureza, fazer parte dela e assim fazer parte do mundo, estar no mundo como partícula, como parte integrante de um grande cosmos, de um grande mistério. Eu, meu corpo atravessado pela natureza, compondo com ela, experienciando o sutil que há quando percebemos novos campos de virtualidades, outros universos incorporais, outros territórios existenciais e modos de existir. O meu corpo tornando-se uma “nova constelação de universos de referência”[1], onde não mais interessam as semelhanças, nem as comparações com as outros seres e sim diferenças intensivas entre o meu corpo e o corpo da natureza, entre as formas do meu corpo e as formas dos outros corpos. Percorrer os caminhos dos meus passos com as frestas das pedras, das rochas. Ouvir as pedras... seus sussurros e segredos, deitar-me em seu ninho, orar e quase dormir nos braços quentes e estáveis das rochas. Ser menos ser e mais força, menos indivíduo e mais devir, experimentar um território existencial antes de uma casa com limites, de um limitado ego. Ser nômade por entre singularidades livres, anônimas e verdes. A arte e a sutilização aproximam o meu corpo da vida, da singularidade da vida. Elas me põem em contato como que eu desconheço em mim, tornando-me uma singularidade-acontecimento - sem sujeito – “um vento, uma atmosfera, uma hora do dia, uma batalha”[2], uma paisagem (...). Volto-me para as intensidades, para as virtualidades e deixo de lado todas as formas de identidade; produzo multiplicidades, que não dizem mais respeito a um único e sedentário sujeito, a um número, mas sim a uma força. Um corpo - força sutil-  atento a todos os detalhes com uma atenção plena, um corpo com certa duração, pequena, quando pensamos na longa vida das árvores e das pedras, por exemplo. No entanto uma duração intensiva, cheia de afetos e paisagens que vão conferindo ao corpo formas e modos de ser e estar no mundo, novos sentidos para a existência. Mais consciência. O corpo, matéria física e etérica, emaranhado de linhas que não param de se conectar umas com as outras, com diferentes velocidades e relações permanentes e impermanentes. Corpo que contém a natureza inteira dentro, que tem ritmo, que bate, treme, chora, grita, vibra inteiro, que sente e age. Um corpo que não é perfeito e sim, incrível. Um corpo-obra-de-arte.   Carina Sehn é artista e sutilizadora corporal, parceira da Bororó 25. [1] GUATTARI, Félix. Caosmose, 2012, p.29. [2] DELEUZE, Gilles. Conversações, 1992, p.143.
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