Carregando

“Quando eu crescer, vou trabalhar com as empresas”.

“Quando eu crescer, vou trabalhar com as empresas”.

10/07/2014
Christiane Ganzo
psicanalista
   
“Quando eu crescer, vou trabalhar com as empresas”
 

Há trinta anos, eu repetia este propósito quase como um mantra. Inaudível. Mas eu sempre soube que estava lá, guardadinho no fundo da minha alma, como um tesouro, um desejo permanentemente postergado. “Ainda não, ainda não chegou a hora”, pensava. Nestes anos de clínica, observei que muitos dos que trabalham corajosamente suas vidas no espaço terapêutico, investigam fortemente suas relações de trabalho. E, como resultado desta dedicação, frequentemente fazem revoluções em suas atividades profissionais.

O cenário de produção de trabalho tem peculiaridades interessantes. Ele é, não rara vez, o lugar onde passamos o maior tempo de nossas vidas. O investimento de tempo, de estudo e de dinheiro no desenvolvimento de habilidades laborativas é seguramente superior a qualquer outro. Comparado ao trabalho, os investimentos em saúde emocional são nulos. O fato de desenvolvermos tanto e tão bem uma atividade laborativa, a ponto de ela ser remunerada, produz um efeito interessante. Consideramos nossas atividades profissionais como nossos pequenos troféus. Não estamos numa boa com nossos companheiros e companheiras, mas no trabalho estamos “mandando bem”. Estamos meio de asinha quebrada com um filho que não correspondeu exatamente ao que desejaríamos, mas no trabalho: “tudo sob controle”. Assim, sutilmente, diariamente, semanalmente, mensalmente recompensados financeiramente, ainda que não com um pote de ouro, recebemos uma dose de reforço na importância do trabalho. Há uma monetarização do valor da vida, como se o desenvolvimento pessoal passasse por fazer dívidas e correr no labirinto para saldá-las. Quanto mais você investe, mais vale! Quanto mais você tem, mais bem sucedido se percebe.

Investigar amorosamente como trabalhamos, o quê e como produzimos, como e com quem nos relacionamos, quem em nós se revela frente às mais diversas circunstâncias do dia-a-dia profissional, é essencial para a saúde emocional. Se por um lado o trabalho é um espaço protegido por suscitar relações menos intensas afetivamente que as familiares, por outro é um espaço de muitas idealizações. Este é um dos paradoxos das relações de trabalho. É preciso serenidade e ferramentas para analisá-lo sem deixar de lado questões importantes, na ânsia de tornar o ambiente corporativo menos complexo. Acolher ideias diferentes sobre o que julgamos ser de nossa competência não é tarefa fácil. Na verdade, não há distinção entre o que fazemos e quem somos. Somos e nos tornamos o que fazemos. Nossa prática determina nosso ser e nosso ser determina nossa prática. Somos um e múltiplos, caleidoscópicos e sempre inaugurais.

Assim, dito um pouco sobre tudo isto, aceito aqui o desafio que me propus há trinta anos. Sinto-me suficientemente segura para adentrar nas questões do mundo laborativo, pois a prática clínica de tanta escuta se fez em muito sobre os cenários profissionais que cada um descortinava dentro de si. Amor e Trabalho, unidos pelo desejo de cada um de SE fazer feliz. Unidos pelo desejo de SE fazer feliz nos ambientes laborativos.

Existe um novo palco que nos provoca e instiga a uma potência maior, mais plena em sermos mais quem já somos, em sermos mais autorais, criativos e caleidoscópicos. Existe sim uma gigantesca onda de uma consciência em expansão que acredita ser possível nos fazermos felizes também nos ambientes de trabalho.

Compartilhe este artigo